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Segunda-feira, 12 de Abril de 2010

O escritor finge que se esquece de si mesmo

mãos Escrever é riscar com as unhas o vento que bate ao rosto, com gestos estranhos, muitas vezes exagerados, quase sempre incompreensíveis à maioria das pessoas. Porém, ao prestar-se mais atenção, vê-se sempre no rosto do escritor um certo sorriso de lado, uma certa ironia, algum desdém. O mundo inteiro se ajusta às suas mãos enquanto escreve. Depois, a obra já publicada ou esquecida sobre a mesa, ele vai até à varanda, espreguiça-se, boceja, e acha qualquer paisagem deslumbrante. E finge que se esquece.

Quinta-feira, 8 de Abril de 2010

O universo cabe dentro de dois corpos que trocam estrelas cadentes

olhos Luzes e mais luzes a piscarem no alto dos montes: carros que indiscretamente procuram a discrição nos ermos da aldeia. Cá embaixo, nós, simples mortais desabituados ao isolamento, neste universo horizontal e fraldário, invejamo-lhos a audácia simples e a solidão escolhida.

Casais que se escondem dentro de caixas de metal luzidio, entre eucaliptos e pinheiros discretíssimos, envidraçados, embaciados por estarem aquecidas demais as palavras e os olhos.

A escuridão das altitudes, os olhos das caixas de metal já apagados, a indiscrição consolidada na discrição conseguida, tudo isto desaparece quando o mundo se torna imenso ao atravessar a ponte que existe entre dois corpos.

Cá em baixo, alguns velhos a invejarem a audácia da juventude que não se aguenta, impingindo-lhes uma culpa que os casais na flor da idade desconhecem ou fingem desconhecer em benefício da irresponsabilidade, esta que sempre será perdoada com a sucessão dos tempos e com o advir da maturidade. Outros velhos a torcerem-se de satisfação, revivendo seus tempos de altitude e isolamento, quando ainda nem existiam caixas metálicas luzidias e tudo era de um frio insuportável, mas suportado em benefício das mesmas irresponsabilidades e da mesma esperança no porvir amadurecido.

Depois, os olhos das caixas metálicas acendem-se novamente, mas seus passageiros ainda não enxergam nada lá fora: os olhos deles ainda não se desprenderam um do outro, olhos que trocam faíscas, mais luzidios do que o metal do automóvel que os carregam monte abaixo. Qual frio, qual motor, qual farol a chamar a atenção, qual mundo, qual nada: o universo passa a caber dentro de dois corpos, dois corpos a trocarem estrelas cadentes que atravessam cortando o espaço, a perderem-se nos buracos negros dos olhos de dois jovens apaixonados.

Terça-feira, 6 de Abril de 2010

Da minha falta de franciscanidade

Sonhei que andava numa loja de animais escura e entulhada de coisas, comprando dois peixes Acarás-Bandeira de cor lilás para juntar aos dois vermelhos que eu já tinha em um aquário na minha casa do sonho. Depois, comprei dois gatos negros e raiados de cinza que pareciam linces, mas um deles acabou fugindo. Consegui capturá-lo de volta e coloquei cada um deles em sacos plásticos transparentes: ambos rasgaram os sacos e fugiram, primeiro um, depois o outro. Em seguida, encontrei um papagaio azul numa árvore no pátio de uma padaria. Tentei pegá-lo, mas ele voou e não consegui. Depois, acordei.

Estou há dois dias com esse sonho na cabeça.

Quinta-feira, 25 de Março de 2010

Cada livro é um saco cheio de coisas

Eu gastando tantas letras e a pensar que deve haver um limite no Infinito, visto que no infinito não há tempo e as coisas por lá todas terminadas, em sua forma definitiva. Jogassem-me lá e eu perguntava

— Olha, quantas letras eu escrevi?

No entanto, depois de voltar ao presente, se eu ainda vivo, com certeza mais angustiado, anotando letra por letra, uma cifra a crescer e eu com os dedos disciplinados, deixando passar apenas as palavras necessárias e indispensáveis, procurando resumir sentenças e nas sentenças capítulos inteiros, palavras curtas, sentidos longos, eu a encher as palavras como quem força a quantidade de coisas dentro de um saco pequeno quase a rebentar, cada saco um livro e eu todo cuidados a entregar aos leitores

— Perdoem-me, são apenas poesias

que a poesia deve ter sido inventada por alguém que de certeza andou pelo infinito e de lá para cá todo preocupado e mais inteligente que eu, mais habilidoso, a inventar a poesia para economizar as letras e ampliar os sentidos até não mais poder. Então cada livro um saco cheio de coisas imaginadas até à boca, de sentidos longos, e nós, coitados, numa dieta dolorosa de letras a enfiar tudo ali dentro, as pessoas, dias e mais dias, tentando decifrar o que escrevemos, sorrindo quando nos entendem, chorando quando nos entendem e indiferentes quando nada lhes faz sentido. Os que não entendem deixando o saco ficar por ali, no canto da sala quase a rebentar, até que uma criança o encontre e diga baixinho, com os olhos arregalados:

— Um saco cheio de mundos!

E o sentido das coisas, sabemos bem, no fim nunca se perde.

Sábado, 20 de Março de 2010

Do tamanho e do peso das coisas

sonhos Disse a minha mãe, agora ao almoço

— Lembro-me perfeitamente do gosto de um queijo que eu comi há quarenta anos na Igreja

então passei a lembrar dos gostos e cheiros que também guardo perfeitamente, dos quais basta uma palavra para que retornem ao nariz e à boca, ela continua

— Era um queijo que vinha em uma lata. Na época parecia-me que a lata levava cinco quilos de queijo, hoje não sei, devia ser um quilo, mas eu era pequena, hoje não sei…

Fiquei a pensar nessa questão da quantidade e do peso das coisas versus nosso tamanho e força que aumentam com o tempo, coisas que eu, quando pequeno, também achava tão grandes e pesadas e hoje, eu maior e mais forte, já fico em dúvida.

Minha casa, cujos cómodos pareciam tão grandes e os brinquedos pequeninos pareciam do tamanho da gente e que agora já se me afiguram tão minúsculos e imbrincáveis à sério.

Tudo era tão grande e fascinante, e as coisas vinham já recheadas de histórias e brincadeiras que bastava pegá-las para logo virem enredos enormes e a gente a tarde inteira a brincar no chão da sala que nem existia calor ou frio, pois andávamos em outros mundos dentro de nós

tão ricos

(nós e o mundo ricos, agora empobrecemos a tudo em grandes)

e aquilo nos fartava imenso, que tínhamos as chaves para dois mundos e nós no meio, atravessando daqui para ali assim num segundo

(estalo os dedos)

que nem sei como mudamos tanto com o tempo e estragamos o mundo vendo coisas que não são à sério, e no entanto matando, morrendo, entediando-nos com elas como se a culpa fosse das coisas e não.

As coisas, coitadas, andam ali pelo chão na mesma, e nós tão grandes que custa-nos agachar para pegá-las, custa-nos agachar e abrir a caixinha invisível que elas guardam e encontrar brincadeiras, cheiros, pesos e medidas diferentes, bem mais alegres e certas do que aquelas que todos nós podemos jurar que são as do mundo que existe

— Enganámos-nos, o mundo real é aquele dos pequeninos, nós é que crescemos em demasia e turramos as coisas.

O mundo real é pequeno e cheio de enredos, o quotidiano é que é belo e seus detalhes abrem caixinhas invisíveis que as coisas trazem escondidas, e uma carinha das coisas, uns olhinhos marotos a dizer

— Tenho muitos segredos, sabia?

a instigar a nós todos, gentes tão grandes, tão distraídas que deixamos as coisas a falarem sozinhas feito loucas

—Nós todos loucos passando adiante com os olhos esgazeados para o nada e esbarrando nas coisas cheias de brincadeiras à sério

tão burros

(perdão, mas é à sério)

tão mesquinhos e sem tempo

(crentes que mandamos no tempo para dizer que não o temos)

e tão grandes e inúteis, cegos que não acreditam na invenção das bengalas a procurar pelo mundo com as garras abertas abrindo caminhos

(qual caminho? que sabemos nós sobre os caminhos?)

a agora já não sei se a lata do queijo da Igreja que a minha mãe comeu tinha um quilo ou cinco quilos que é o que parecia à minha mãe porque ela era pequena, mas estou quase certo que

(espera, deixa-me pegar uma coisita ali no chão que está a chamar-me com os olhinhos marotos)

quase certo não, eu tenho a certeza que aquela lata trazia cinco quilos de queijo dos bons, com certeza que sim!, e era uma delícia de queijo, um sabor inesquecível, como nunca comemos desde então.

Sexta-feira, 19 de Março de 2010

Da impossibilidade de acertar os relógios

relógioengrenagens Qual a idade do tempo? Qual não seria a alegria de assistir ao primeiro segundo de sua existência? E nós seres humanos, cativos do tempo, sem poder imaginar como seria antes desse primeiro segundo, o que havia, o que haveria de estar em semente na mente do Logos,

O Logos ali

(sempre o imaginei em um lugar sublimemente alto, inalcançável ainda, pois que antes do Verbo se fazer carne Ele só espírito e eu sem saber como situá-lo visto que o espírito é um não sei o quê que não se mede)

do imensuravelmente alto

— Fiat Lux

a imaginar como pode ter dito a célebre frase se para dizê-la leva-se algum tempo, pensando para com a minha consciência

— Ao dizê-la, foi criado o tempo

e acreditando que o primeiro segundo da existência do tempo foi preenchido pelo "F" do Fiat, olho para o meu relógio de pulso e sei que nunca poderá estar certo, eu não o pude acertar pelo "F" do Fiat, eu não estava lá, e nenhum relógio agora me parece possível de bater os segundos pontualmente

— O que isso importa?

importa sim, senhora consciência, pois queria ter o meu de pulso certinho com a batida do universo, e quando chegasse ao fim a corda do mundo queria que o meu parasse da mesma maneira, pontualmente no fim das coisas que é assim que tem de ser com tudo que se acaba: no tempo certo

— Deve ser por isso que só Deus sabe o fim dos tempos, o Único que tem o relógio certo desde o primeiro segundo de todos os segundos até o último de todos os tempos

desanimas-me consciência, acabas comigo já que nunca poderei acertar o tempo e agora eu perdido a achar inútil acertar os ponteiros, inútil usar um relógio, olhar para o sol e perseguir às suas sombras contando os riscos no chão, e ser pego pela morte a qual deve funcionar lá pelos segundos certos e eu atrasado ou adiantado nas horas, de repente

— Acabou teu tempo

mas eu sem culpa por já ter nascido assim errado mas a morte não espera visto que funciona pelo relógio certo, nem um segundo atrás ou adiante, eu a apontar desesperado para o pulso vazio, na marca branca onde eu trazia em outros tempos um relogiozito de pulso arranhado que não valia de nada e a morte sem deixar eu sequer falar para que não atrase o seu Fiat Lux ao contrário, os amigos

— Chegou a vez dele, não teve jeito

Sim, sim, não tem jeito algum de atrasar ou adiantar quem traz seu relógio acertado desde o primeiro segundo no primeiro "F" do Fiat, quando o Logos decretou os tempos por tempo limitado e nos concedeu a ciência dos relógios mas não a dos tempos certos, uma ausência fundamental e que nos deixa assim à deriva.

Quinta-feira, 18 de Março de 2010

Matei o meu marido sim senhor

Matei o meu marido sim senhor, e daí? Andava já ressequida pela vida, abandonada junto aos móveis da casa e

(casa? isto não se parece com uma)

já não esperava nada de ti Pedro Afonso, nada, pois só ouvia-te a chamar-me pelo nome quando chegavas bêbado já tarde da noite e não era bem tu que chamavas-me, era a fome ou algo dentro da tua barriga, um bicho que rosnava para mim

— Sónia

e se por acaso demorava-me por estar fazendo algo aos fundos da casa

(insisto que não se parece com uma)

vinhas-me já a berrar

(não tu, algo que vinha de dentro de ti, da tua barriga)

a bater-me, eu a correr e aqueles passos rápidos que custavam-me visto que sem vontade de atender-te, de olhar-te, de querer-te menos que aos móveis que não eram móveis, a sala que não era sala dentro de uma casa que não se parecia com uma: a minha vida contigo não dava nem uma frase de pôr naqueles pratos de pendurar em paredes de cozinha

(tão feios, tão cafonas)

daqueles que esquecemos a encherem-se de gordura para dar com eles anos depois caídos atrás da geladeira ou de um móvel qualquer.

Por isso matei-te, e mataria quantas vezes fosse preciso, mais e melhor, com requintes de crueldade feminina como costuma-se dizer

(sou mulher, lembras-te?)

o tipo de ódio frio que arrefece um fósforo aceso apenas com um olhar de soslaio, eu que sou mulher sem que alguém notasse, mas agora fico com a casa que não se parece com uma, eu mesmo a chamar pelo meu nome

— Sónia

a dar comigo satisfeita por ser eu mesma a chamar, mesmo que ninguém, mesmo que apenas eu a andar com calma pelos cómodos

(não são bem cómodos, mas algo parecido)

enquanto todos pensam que partiste desta para pior ao cair sobre o ancinho por conta de um ataque no coração e até que não está muito distante a verdade já que tinhas mesmo um problema no coração

(Foi o bicho que o comeu, Pedro Afonso?)

um problema comigo que aturava-te e um vazio o qual eu podia ter ocupado mas não, eu antes uma empregada, eu uma cozinheira, eu uma coisa qualquer para ser chamada aos tapas e aos berros por algo que não se parecia contigo em novo, um bicho na tua barriga

(é como lembro de ti, vejo-te assim)

uma barriga imensa que abri para ver se calava o que andava ali dentro e naquilo de tentar calar ao bicho calei-te todo

(eras um bicho ou tinhas um bicho?)

eu aqui tão tarde da noite a imaginar-te no teu túmulo

(teu não, perdão, o túmulo do bicho que trazias na barriga, agora silenciosa como convém a uma boa e educada barriguinha de respeito)

para teu desgosto Pedro Afonso, sentada numa cadeirita junto à mesa para jantar como se fosse em cima de ti, e apesar da cadeira mal assentada

(baloiça um cisquito)

soube-me bem tanto a comida quanto o vazio numa casa que não se parece com uma e que conquistei inteira para mim com o teu silêncio.

José Roldão

Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2010

Breves instantes quotidianos, seguidos de um ponto final.

mao no vidro Uma tempestade sem tamanho, que desaba do céu sobre as cabeças loiras e castanhas das casas, faz com que o cão, protegido e com os olhos fixos nas nuvens, ladre intumescido e rosne impropérios a um São Pedro irado. Os animais não aceitam a prisão imposta pelas contrariedades atmosféricas. Os homens aproveitam-se para acolherem-se em suas casas ou acabam por sofrer, vitimados pelas enxurradas, que são como esteiras rolantes a levar os seus pertences, as suas vidas, suas memórias, uma correnteza desumana; enquanto o que resta – isto ninguém os tira – são olhos enevoados que observam, silenciosos, rasos de uma chuva interior salgada que inunda peito abaixo.

Os pinheiros e eucaliptos na crista dos montes, despenteados, curvam-se, resistindo soberbamente. Árvores esguias que metem medo aos pássaros, que partem como que lançados de imensas catapultas verdes.

Através da janela, vejo um rosto envidraçado na casa ao longe. Uma mulher que reza ou revive ao mover os lábios, cuja respiração vai embaciando o limite transparente do mundo, um círculo fosco e quente, contrastando com todas as possibilidades além, no espaço que nos separa. Repentinamente, traça semicírculos no vidro, ameaça rabiscar nomes, iniciais, e um sorriso à vontade se transforma em denúncia de segredos bem guardados das pontas dos dedos para trás. Depois, afasta-se; e então as suas marcas deixam de existir aos poucos: vidas e mais vidas à salvo dos meus olhos e do meu curto juízo.

Tão depressa como veio, a tempestade despede-se. Nuvens imensas abrem passagem para o sol, que chega como o pai que encontra os filhos no flagrante de um desastre. Expulsa-os ainda aos raios e bufa enfastiado: o tempo não estava para brincadeiras. Uma breve arrumação e tudo retorna à sua paz habitual: o cão deixou de ladrar, convencido; a mulher esqueceu o limite transparente do mundo; as árvores balançam levemente, num gesto de arrependimento, chamando os pássaros de volta; e eu, fascinado por todos estes detalhes quotidianos, ponho o ponto final e vou à vida.

Domingo, 14 de Fevereiro de 2010

Um breve torpor dionisíaco

Leonardo_da_Vinci_001 Sentei-me rente à lareira. Sinto o sabor efervescente do tinto na boca; solto a fumaça, antes aprisionada no cigarro, para que se junte ao lume e suba chaminé acima e, depois, vencido pela ociosidade, sinto o calor a queimar o rosto e aquiescer as ideias. Cenas improváveis até bem pouco tempo atrás... Cenas desejadas e, por isso mesmo, agora, vividas como quem se alimenta fartamente, depois de 40 anos no deserto a pão e água.

São tantas as palavras que terei de gastar para recontar o passado e minuciar o presente - este presente tão repleto de pequenos e importantes detalhes quotidianos, os quais me fogem da vista e se alojam entre os dedos - que sinto se apossar de mim um torpor dionisíaco…

Tenho agarrado a vida feito animal ensandecido: já não trago sujeira acuada sob as unhas, mas lascas de sol, flocos de neve, rasgos de verde, sotaques alheios iludindo ao meu, enfim, ando por aí a fincar as pazinhas dos meus dedos, cavando no ar a nova vida que chega ao meu rosto feito vento impetuoso, soprando tanta esperança que até me mete medo.

São tantas as coisas a contar que, ao chegar aqui, perdi-me, embaraçado, prefaciando uma obra ainda inexistente. É que o lume está se apagando, o tinto se esvaziando, e eu a deixar uma tola tela em branco arrefecer-me o espírito. Por isso, vitimado pelas circunstâncias, despeço-me alegremente. É preciso uma certa dose de ócio qualificado e um pouco de contemplação amorosa - tanto mais quanto o frio aumenta.

Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009

A lâmina que corta minha vida

toc-breakfast01 Mais um momento divisor se aproxima, dois dias adiante. O que corta minha vida sempre em duas partes (e tudo isto tem a ver com a geografia) se parece com uma faca de cortar pão: tanto pela rudeza e agressividade da lâmina, quanto pela simplicidade e miudeza do que ela corta.

Quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009

Dos homens e das tempestades

2267372267_675be898d4 O vento chega à frente, como se fosse um pequeno mito anunciando uma deusa mais poderosa que se aproxima: a chuva forte, impetuosa, irresistível.

As nuvens bradam em homenagem, anunciantes, faiscando com violência para avisar que com a natureza não se brinca, e toda ela se mostra bravia: um conjunto de harmonia perfeita, ainda que destruidora.

Então a tempestade inunda as ruas instigando falsos rios e córregos sobre o asfalto. O vento faz a dança agitada das árvores, um êxtase verde que impressiona os pássaros trêmulos e assustados em suas copas, tornando-os úmidos e sombrios.

A natureza inteira grita e força o homem a reparar em sua pequenez e fragilidade, desmentindo a certeza humana de que a teria subjugado, tornando assim pública uma farsa cientificamente comprovada.

Quando a tempestade irrompe, os homens acuam-se dentro de cubículos acimentados, mordendo-se de inveja e medo, ao mesmo tempo em que empalidecem por toda a sua impotência estar sendo escarnecida no meio da rua.

Momentos depois, feito fúria de esposa ou de mãe, a tempestade se acalma, resmungando já com mais brandura enquanto sai de mansinho. Então a natureza mostra um breve sorriso, como quem diz meio sem jeito

— Deixem pra lá

Em seguida, os homens saem de seus cubículos de cimento, esquecidos de sua pequenez e impotência. Vestem-se de senhores e saem à rua, carregando em baixo do braço livros recheados de certezas científicas que não servem para quase nada. Eles olham para o céu e dizem

— Deixamos não; aguarde-nos...

Terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

Então é Natal


por Mayã Cristina
(Minha filha de 10 anos. Orgulho do papai.)



Natal é uma época
Onde todos se reúnem
A família, os amigos
Que vocês também tem.

Curtindo a festa,
Rindo e brincando
Esperam a hora
Do Papai Noel chegar.

Ho, ho, ho!
Ele chegou!
Cada um abrindo seus presentes
E vendo se gostou.

Depois dos presentes
É a hora da ceia!
Juntos à mesa
Na alegria intensa.

É a hora de partir
Mas não fique triste!
Amanhã desejaremos a todos um Feliz Natal
E depois vamos para casa felizes!

Feliz Natal!!!

Domingo, 13 de Dezembro de 2009

O caso do botão alaranjado

Tenho a impressão que minha filha de 10 anos anda mais inteligente e observadora do que eu, nem é preciso muita coisa para ultrapassar essa linha tão tênue, mas percebo que ela deu um salto quantitativo nestes últimos meses, tenho me surpreendido

— Conta, papai

(estou contando, exibida)

desenho de onibus para colorir fui buscá-la na casa da mãe, e na volta, dentro de um ônibus que mais parecia uma sauna, observávamos um dispositivo para auxiliar as pessoas de cadeiras de rodas subirem para o veículo

nós dois sentados um ao lado do outro nos últimos bancos, ou seja, com aquilo à nossa frente, já que a coisa ficava acoplada à porta traseira

pode-se imaginar a cena do ponto de vista de uma terceira pessoa: o pai e a filha, cada um com uma das sobrancelhas arqueadas, olhando para a coisa

(eu conto a minha parte, papai)

— Papai, tem ali aquele botão e se a pessoa apertá-lo deve descer esse elevador e a cadeira de rodas encaixa e sobe

fiquei olhando o tal do botão alaranjado e achei que a dedução estava correta, então fiquei quieto

segundos depois

— Papai

— Hum

— Acho que você não entendeu

— O quê?

— Eu estava aqui pensando e descobri que aquele botão não faz aquilo que expliquei antes, tem uma letra “P” escrita nele, que deve querer dizer “parar”, e quando a pessoa quiser descer, basta apertar aquele botão, e então deve fazer um barulho diferente dos outros botões, aí o motorista vai entender que tem que ligar aquela coisa para que a pessoa desça, deve apitar um “sinal” diferente, senão o motorista vai pensar que é outra pessoa

— Sei Mayã... mas porque você achou que eu não tinha entendido?

— Ué, porque eu dei aquela explicação e você não percebeu que eu estava errada

o que ela quis dizer, na verdade, foi que havia jogado uma hipótese, depois ela mesma havia percebido que estava errada e, depois disto, ainda tinha feito uma nova dedução, mais lógica e aceitável, enquanto eu não, apenas aceitei a primeira, não me toquei que havia uma letra gravada no botão e nem fui capaz de criar outra lógica para a coisa

(o pior de tudo foi que eu achei mesmo que aquela primeira hipótese era a única que fazia sentido, por isso aceitei e fiquei quieto)

— Papai eu te peguei, essa foi boa

(todos já devem ter percebido isso, Mayã)

o que me impressionou foi ela ter deduzido que aquele botão, quando apertado, tinha que fazer um som diferente para o motorista

se eu quisesse descer, tocava o som padrão, mas se aquela pessoa na cadeira de rodas quisesse o mesmo, aquele botão específico tocava um som diferente, fazendo com que o motorista soubesse que teria de acionar aquele elevador assim que parasse no próximo ponto, sem constrangimentos para o cadeirista

não sei se aquele botão faz um som diferente, mas, se não faz, a idéia dela seria mais adequada e valeria à pena ser posta em prática

(contei, satisfeita?)

— Eu sou demais ;-)

se aquela terceira pessoa que imaginamos no ônibus continuasse a nos observar, seria testemunha de que apenas uma das sobrancelhas continuou arqueada ainda algum tempo depois desses diálogos

a minha.

Sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009

O quebra-cabeça que dá valor à existência

escher11 Estou começando a acreditar que as coisas que duram para sempre são aquelas que experimentamos e planejamos na infância. Os projetos, as brincadeiras, as pessoas que fizeram parte de nossa vida nessa época, tudo isto, por mais que tenha havido distância entre as pessoas ou que as vontades tenham adormecido durante vários anos, tudo isto volta para continuar do ponto exato de onde havia parado. E parece-me que são situações e pessoas fundamentais para nossa história. Como se os destinos tivessem sussurrado sem nos darmos conta

— Vamos ali viver a vida e já nos encontramos

e sabemos que a marcação destes tempos é coisa sobre a qual não adianta especular

talvez isso esteja acontecendo apenas comigo, mas sei que existe uma espécie de retorno que ignora o peso do passado, como se partes da nossa história submergissem por anos, mas depois emergissem em alto mar respingando vida para todos os lados

— Onde foi que paramos?

e lá estão restauradas diversas conexões que já havíamos esquecido, sem nos darmos conta

o destino, esse impulso que tenta nos coagir, e sobre o qual podemos resistir brava ou idiotamente, poderia nos poupar dos desvios e das perdas, poderia nos mostrar o quebra-cabeça montado, antes de jogar as peças por todos os lados de nossa existência

— Anda ver se consegues encontrá-las, tens uma vida

mas nós aceitamos o jogo

— Que escolha?

pior ainda, acreditamos que estamos a nos divertir um bocado ou que andamos por aí a fazer coisas que valem à pena ser contadas

pode ser que a nossa história só alcance algum valor se dermos a volta no destino e tentemos passar rapidamente a vista em nossa vida, mas à partir de um outro ângulo: a eternidade. Passar a vista é uma metáfora, pois não temos acesso a estas coisas

— Há-de chegar o dia, se cresceres o bastante, mas aí já não vai te servir de nada

no entanto, podemos pressenti-las ou solicitá-las com cuidado Àquele que dá nome à eternidade. Sim, pois é lá que o quebra-cabeça guarda uma imagem completa, definitiva. Sem essa transcendente vantagem, levaremos a nossa existência a catar peças aqui e acolá, algumas certas

— Só te servem as exatas

outras erradas

— E são quase todas

foi então que eu tive o vislumbre dessas conexões e também eu emergi no alto mar da minha vida a perguntar

— Onde foi que paramos?