O vento chega à frente, como se fosse um pequeno mito anunciando uma deusa mais poderosa que se aproxima: a chuva forte, impetuosa, irresistível.
As nuvens bradam em homenagem, anunciantes, faiscando com violência para avisar que com a natureza não se brinca, e toda ela se mostra bravia: um conjunto de harmonia perfeita, ainda que destruidora.
Então a tempestade inunda as ruas instigando falsos rios e córregos sobre o asfalto. O vento faz a dança agitada das árvores, um êxtase verde que impressiona os pássaros trêmulos e assustados em suas copas, tornando-os úmidos e sombrios.
A natureza inteira grita e força o homem a reparar em sua pequenez e fragilidade, desmentindo a certeza humana de que a teria subjugado, tornando assim pública uma farsa cientificamente comprovada.
Quando a tempestade irrompe, os homens acuam-se dentro de cubículos acimentados, mordendo-se de inveja e medo, ao mesmo tempo em que empalidecem por toda a sua impotência estar sendo escarnecida no meio da rua.
Momentos depois, feito fúria de esposa ou de mãe, a tempestade se acalma, resmungando já com mais brandura enquanto sai de mansinho. Então a natureza mostra um breve sorriso, como quem diz meio sem jeito
— Deixem pra lá
Em seguida, os homens saem de seus cubículos de cimento, esquecidos de sua pequenez e impotência. Vestem-se de senhores e saem à rua, carregando em baixo do braço livros recheados de certezas científicas que não servem para quase nada. Eles olham para o céu e dizem
— Deixamos não; aguarde-nos...



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