Tenho a impressão que minha filha de 10 anos anda mais inteligente e observadora do que eu, nem é preciso muita coisa para ultrapassar essa linha tão tênue, mas percebo que ela deu um salto quantitativo nestes últimos meses, tenho me surpreendido
— Conta, papai
(estou contando, exibida)
fui buscá-la na casa da mãe, e na volta, dentro de um ônibus que mais parecia uma sauna, observávamos um dispositivo para auxiliar as pessoas de cadeiras de rodas subirem para o veículo
nós dois sentados um ao lado do outro nos últimos bancos, ou seja, com aquilo à nossa frente, já que a coisa ficava acoplada à porta traseira
pode-se imaginar a cena do ponto de vista de uma terceira pessoa: o pai e a filha, cada um com uma das sobrancelhas arqueadas, olhando para a coisa
(eu conto a minha parte, papai)
— Papai, tem ali aquele botão e se a pessoa apertá-lo deve descer esse elevador e a cadeira de rodas encaixa e sobe
fiquei olhando o tal do botão alaranjado e achei que a dedução estava correta, então fiquei quieto
segundos depois
— Papai
— Hum
— Acho que você não entendeu
— O quê?
— Eu estava aqui pensando e descobri que aquele botão não faz aquilo que expliquei antes, tem uma letra “P” escrita nele, que deve querer dizer “parar”, e quando a pessoa quiser descer, basta apertar aquele botão, e então deve fazer um barulho diferente dos outros botões, aí o motorista vai entender que tem que ligar aquela coisa para que a pessoa desça, deve apitar um “sinal” diferente, senão o motorista vai pensar que é outra pessoa
— Sei Mayã... mas porque você achou que eu não tinha entendido?
— Ué, porque eu dei aquela explicação e você não percebeu que eu estava errada
o que ela quis dizer, na verdade, foi que havia jogado uma hipótese, depois ela mesma havia percebido que estava errada e, depois disto, ainda tinha feito uma nova dedução, mais lógica e aceitável, enquanto eu não, apenas aceitei a primeira, não me toquei que havia uma letra gravada no botão e nem fui capaz de criar outra lógica para a coisa
(o pior de tudo foi que eu achei mesmo que aquela primeira hipótese era a única que fazia sentido, por isso aceitei e fiquei quieto)
— Papai eu te peguei, essa foi boa
(todos já devem ter percebido isso, Mayã)
o que me impressionou foi ela ter deduzido que aquele botão, quando apertado, tinha que fazer um som diferente para o motorista
se eu quisesse descer, tocava o som padrão, mas se aquela pessoa na cadeira de rodas quisesse o mesmo, aquele botão específico tocava um som diferente, fazendo com que o motorista soubesse que teria de acionar aquele elevador assim que parasse no próximo ponto, sem constrangimentos para o cadeirista
não sei se aquele botão faz um som diferente, mas, se não faz, a idéia dela seria mais adequada e valeria à pena ser posta em prática
(contei, satisfeita?)
— Eu sou demais ;-)
se aquela terceira pessoa que imaginamos no ônibus continuasse a nos observar, seria testemunha de que apenas uma das sobrancelhas continuou arqueada ainda algum tempo depois desses diálogos
a minha.



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