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Quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

Um sonho ao passado

mao_macanetaAndo cá fechado em minha torre, meio isolado do mundo em um momento de transição, daqueles em que são estendidas no varal notas de solidão querida, desejada, como se a única coisa que importasse fosse ruminar a vida em silêncio.

Há roupa para lavar, mas finjo que me esqueço; há-de haver um tempo certo para cada coisa, um momento específico, exato, então passo os dias tentando alcançá-lo, ruminando, e lembrei-me do sonho que tive faz algumas semanas, um sonho bom nas formas, nos cheiros, nas lembranças. E talvez ruminar a vida seja isto.

Voltava ao tempo de minha adolescência, mas era a consciência e a minha forma de hoje que lá estavam; ali ao lado, na Rua da Conquista. Não havia mais ninguém. Tudo aconteceu como se um anjo invisível me agarrasse pelos braços, voltasse no tempo e

— É para ti esta rua.

Sentia-me bem e sabia que estava voltando ao passado, então passei a perceber o ambiente: a calçada fria de cimento onde eu pisava; o vento fresco e suave da tarde; o cheiro e o som das árvores; a extensão da rua vazia; e de súbito toda a carga daqueles anos derrubou-me em lágrimas, num sentimento nunca antes experimentado por mim em sonhos. Eu sabia que estava sonhando e sabia também que tinha voltado àquele tempo, então fiquei quieto, observando, sentindo, colhendo o máximo que podia daqueles instantes fugidios. É inútil tentar descrever em palavras tudo o que se passou em mim durante aqueles tão poucos segundos; inútil, infelizmente, pois gostaria de dividir em pormenores animados o drama, a peça, partilhar em bocados e embrulhá-los para presentear a cada um dos amigos, dizendo-lhes

— Olha, aqui está um pedaço de mim

e no entanto não consigo. Há uma ponte entre a experiência e a linguagem, uma ponte incompleta, um pedaço de cada lado e no meio um rio onde existe um monstrengo que não nos deixa atravessá-lo a nado. Resta-nos saltar de uma parte da ponte à outra, e para obtermos sucesso não podemos levar peso algum, temos que saltar leves, e nisto lá deixamos as palavras e os gestos exatos para trás.

Então isto é apenas uma tentativa, não de mostrar o que senti durante aquele sonho, mas de dar a mim mesmo em imagens e impulsos para que atravesses tu mesmo a tua própria ponte, saltando até o outro lado do rio. Onde fica esse rio? Não sei. Como chegas até aquela ponte? Tampouco. Ainda assim queria dar-te alguma coisa. De tudo o que senti é pouco, eu sei, no entanto é só o que tenho

— Toma para ti estas imagens.

1 comentários:

sonia disse...

o desejo de partilhar conosco a sensação que tiveste em teus sonhos, posso assegurar-te que conseguiste! claro que minha história é diferente, recordei as emoções de um sonho que tive esta noite e assim pude calcular o como sentiste o teu sonho!

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