Uma tempestade sem tamanho, que desaba do céu sobre as cabeças loiras e castanhas das casas, faz com que o cão, protegido e com os olhos fixos nas nuvens, ladre intumescido e rosne impropérios a um São Pedro irado. Os animais não aceitam a prisão imposta pelas contrariedades atmosféricas. Os homens aproveitam-se para acolherem-se em suas casas ou acabam por sofrer, vitimados pelas enxurradas, que são como esteiras rolantes a levar os seus pertences, as suas vidas, suas memórias, uma correnteza desumana; enquanto o que resta – isto ninguém os tira – são olhos enevoados que observam, silenciosos, rasos de uma chuva interior salgada que inunda peito abaixo.
Os pinheiros e eucaliptos na crista dos montes, despenteados, curvam-se, resistindo soberbamente. Árvores esguias que metem medo aos pássaros, que partem como que lançados de imensas catapultas verdes.
Através da janela, vejo um rosto envidraçado na casa ao longe. Uma mulher que reza ou revive ao mover os lábios, cuja respiração vai embaciando o limite transparente do mundo, um círculo fosco e quente, contrastando com todas as possibilidades além, no espaço que nos separa. Repentinamente, traça semicírculos no vidro, ameaça rabiscar nomes, iniciais, e um sorriso à vontade se transforma em denúncia de segredos bem guardados das pontas dos dedos para trás. Depois, afasta-se; e então as suas marcas deixam de existir aos poucos: vidas e mais vidas à salvo dos meus olhos e do meu curto juízo.
Tão depressa como veio, a tempestade despede-se. Nuvens imensas abrem passagem para o sol, que chega como o pai que encontra os filhos no flagrante de um desastre. Expulsa-os ainda aos raios e bufa enfastiado: o tempo não estava para brincadeiras. Uma breve arrumação e tudo retorna à sua paz habitual: o cão deixou de ladrar, convencido; a mulher esqueceu o limite transparente do mundo; as árvores balançam levemente, num gesto de arrependimento, chamando os pássaros de volta; e eu, fascinado por todos estes detalhes quotidianos, ponho o ponto final e vou à vida.



1 comentários:
A imagem que o texto traz, à qual ele nos transporta, é deliciosa (não encontro outra palavra). Parabéns.
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