Disse a minha mãe, agora ao almoço
— Lembro-me perfeitamente do gosto de um queijo que eu comi há quarenta anos na Igreja
então passei a lembrar dos gostos e cheiros que também guardo perfeitamente, dos quais basta uma palavra para que retornem ao nariz e à boca, ela continua
— Era um queijo que vinha em uma lata. Na época parecia-me que a lata levava cinco quilos de queijo, hoje não sei, devia ser um quilo, mas eu era pequena, hoje não sei…
Fiquei a pensar nessa questão da quantidade e do peso das coisas versus nosso tamanho e força que aumentam com o tempo, coisas que eu, quando pequeno, também achava tão grandes e pesadas e hoje, eu maior e mais forte, já fico em dúvida.
Minha casa, cujos cómodos pareciam tão grandes e os brinquedos pequeninos pareciam do tamanho da gente e que agora já se me afiguram tão minúsculos e imbrincáveis à sério.
Tudo era tão grande e fascinante, e as coisas vinham já recheadas de histórias e brincadeiras que bastava pegá-las para logo virem enredos enormes e a gente a tarde inteira a brincar no chão da sala que nem existia calor ou frio, pois andávamos em outros mundos dentro de nós
tão ricos
(nós e o mundo ricos, agora empobrecemos a tudo em grandes)
e aquilo nos fartava imenso, que tínhamos as chaves para dois mundos e nós no meio, atravessando daqui para ali assim num segundo
(estalo os dedos)
que nem sei como mudamos tanto com o tempo e estragamos o mundo vendo coisas que não são à sério, e no entanto matando, morrendo, entediando-nos com elas como se a culpa fosse das coisas e não.
As coisas, coitadas, andam ali pelo chão na mesma, e nós tão grandes que custa-nos agachar para pegá-las, custa-nos agachar e abrir a caixinha invisível que elas guardam e encontrar brincadeiras, cheiros, pesos e medidas diferentes, bem mais alegres e certas do que aquelas que todos nós podemos jurar que são as do mundo que existe
— Enganámos-nos, o mundo real é aquele dos pequeninos, nós é que crescemos em demasia e turramos as coisas.
O mundo real é pequeno e cheio de enredos, o quotidiano é que é belo e seus detalhes abrem caixinhas invisíveis que as coisas trazem escondidas, e uma carinha das coisas, uns olhinhos marotos a dizer
— Tenho muitos segredos, sabia?
a instigar a nós todos, gentes tão grandes, tão distraídas que deixamos as coisas a falarem sozinhas feito loucas
—Nós todos loucos passando adiante com os olhos esgazeados para o nada e esbarrando nas coisas cheias de brincadeiras à sério
tão burros
(perdão, mas é à sério)
tão mesquinhos e sem tempo
(crentes que mandamos no tempo para dizer que não o temos)
e tão grandes e inúteis, cegos que não acreditam na invenção das bengalas a procurar pelo mundo com as garras abertas abrindo caminhos
(qual caminho? que sabemos nós sobre os caminhos?)
a agora já não sei se a lata do queijo da Igreja que a minha mãe comeu tinha um quilo ou cinco quilos que é o que parecia à minha mãe porque ela era pequena, mas estou quase certo que
(espera, deixa-me pegar uma coisita ali no chão que está a chamar-me com os olhinhos marotos)
quase certo não, eu tenho a certeza que aquela lata trazia cinco quilos de queijo dos bons, com certeza que sim!, e era uma delícia de queijo, um sabor inesquecível, como nunca comemos desde então.



2 comentários:
compartilho os cinco quilos de queijo quando me lembro da casa da minha avó, onde vivi até os 8 anos de idade. minha avozinha era portuguesa e uma das pessoas mais queridas para mim. cheguei a gostar mais dela do que de minha mãe...e a casa onde morávamos está ainda viva na minha mente, com toda a magia que eu vivi por lá. daria um livro de mais de 300 páginas escrever sobre minha vida nessa casa mágica!
e como eu me lembro da casa da minha madrinha!!! era enorme... e a varanda, que eu adorava... hoje me parece tudo tão sem sal, depois que meu padrinho morreu... e a casa é tão pequena... a varanda, nem se fala
lindo seu texto, Zé, como sempre
abração
Enviar um comentário